Belo Horizonte — Uma noiva que aparece à beira de uma estrada pedindo carona e desaparece dentro dos carros. Um animal desconhecido, descrito como uma mistura de macaco, galinha e lagartixa. E uma bola de fogo brilhante que desce do céu.Para tentar encontrá-los — e, quem sabe, até capturá-los —, algumas orientações são importantes: não comer chocolate, para evitar atrair mosquitos que, segundo os caçadores, sentem o cheiro da pele; não usar shampoo, que também deixa cheiro; e, em alguns casos, é melhor nem tomar banho. Quem se dispõe a servir de isca humana dentro de uma gaiola deve ficar pelo menos cinco dias sem se lavar.Essas são algumas das instruções para quem quer participar das expedições periódicas, que incluem caminhadas pela mata e buscas por criaturas misteriosas, como, Noiva de Furquim, Caboclo-d’Água e Mãe do Ouro.No último dia 10 de outubro, um anúncio publicado pelo jornal O Espeto chamou a atenção: a Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam), em Minas Gerais, informou que colocará placas de aviso de perigo em áreas onde o Caboclo-d’Água teria sido avistado. A publicação também convidava os corajosos a participar de um curso para a caçada à criatura, previsto ainda este mês. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Jornal O Espeto (@jornaloespeto)A associação reúne amigos, interessados em folclore e curiosos que investigam relatos sobre o sobrenatural e lendas da região, muitos deles centenários.Entre uma expedição e outra, o grupo também visita locais históricos e culturais, promove cursos de educação patrimonial e desenvolve atividades em escolas, com distribuição de livros sobre as lendas da região.8 imagensFechar modal.1 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo Pessoal2 de 8Caboclo D'ÁguaArquivo Pessoal3 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo Pessoal4 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo Pessoal5 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo Pessoal6 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo Pessoal7 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo Pessoal8 de 8Associação de Caçadores de Assombrações e Monstros de Mariana (Acam)Arquivo PessoalComo surgiuA história começou em 2008, com a publicação de lendas e causos no jornal O Espeto. Diante da grande quantidade de relatos sobre o Caboclo-d’Água, alguns amigos do dono do jornal decidiram fazer uma vaquinha e oferecer R$ 1 mil a quem conseguisse apresentar uma fotografia da criatura. O próprio grupo ficaria responsável por avaliar a autenticidade da imagem.“A partir daí passamos a receber também outros casos. Era o início da Acam, que nascia sem saber que existia. Só depois entendemos que estávamos formando um grupo! Recebemos pessoas, relatos, começamos a fazer pesquisas”, contou Leandro Henrique dos Santos, de 51 anos, professor, historiador, jornalista e diretor e fundador do jornal O Espeto.Atualmente, a associação tem cerca de 80 membros inscritos e qualquer pessoa pode participar, sem restrição de idade. Menores de idade também são bem-vindos, mas precisam estar acompanhados de um responsável durante viagens e expedições.Desde 2008, o grupo já realizou mais de 100 atividades, além de cinco encontros temáticos em municípios como Ouro Preto (Região Central), Acaiaca (Zona da Mata), Diogo de Vasconcelos (Região Central), Barra Longa (Zona da Mata) e Catas Altas (Região Central de Minas Gerais). A Acam não cobra pela participação nem recebe doações. “Pois, para nós, o acesso à cultura e às atividades deve ser gratuito“, explicou Leandro. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Jornal O Espeto (@jornaloespeto)Quem são os monstrosO Caboclo-d’Água, a Noiva de Furquim e a Mãe do Ouro têm algo em comum: relatos de testemunhas que atravessam gerações. “Esses três são os que mais têm testemunhas, muitas das quais se tornaram membros da Acam. Encontrar um ambiente acolhedor para falar sobre algo que foge do padrão da normalidade é reconfortante. A alegria das pessoas ao compartilhar seus relatos gera empatia e respeito, até para a autoestima”, disse.Leandro conta que o Caboclo-d’Água é descrito como um animal desconhecido, com características que lembram uma mistura de macaco, galinha e lagartixa. Segundo a associação, depoimentos de garimpeiros, agricultores e fazendeiros ajudaram a identificar as regiões com maior concentração de supostas aparições por Barra Longa, Acaiaca, Guaraciaba e São Pedro dos Ferros, na Zona da Mata; e Mariana, Ouro Preto e Diogo de Vasconcelos, na Região Central de Minas Gerais.Leandro conta que o assunto chegou a ser discutido em reuniões de vereadores de Barra Longa e Diogo de Vasconcelos. “Duas mortes de pessoas foram atribuídas a seus ataques em Barra Longa e Acaiaca. Casos de ataques a bois foram relatados pelo ex-vereador Jafe, de Barra Longa, e pelo ex-presidente da Câmara de Diogo de Vasconcelos, José Quirino, que chegou a gravar um depoimento em vídeo sobre seu confronto com o Caboclo-d’Água, durante o qual teria disparado tiros para tentar matar a criatura”, contou. Leia também Minas GeraisBotecos, trilhas e história do futebol: veja passeios para redescobrir BH Minas GeraisCinema de graça: projeto leva filmes a favelas e ocupações de BH Minas GeraisDo Carnaval aos festivais: cultura movimenta R$ 4 bilhões em BH Em Barra Longa, uma estátua da criatura foi instalada na praça principal da cidade.Para tentar encontrá-lo, os integrantes da Acam organizam expedições pela mata e montam armadilhas. Em uma delas, um integrante participou como isca humana durante quatro noites. A estratégia consistia em colocá-lo dentro de uma gaiola instalada no meio do rio para atrair o suposto animal. Caso o Caboclo-d’Água aparecesse, ele deveria escapar por uma abertura no teto da estrutura.“Instalamos a armadilha em um local de difícil acesso, que preferimos não revelar para não atrair curiosos. Nosso objetivo não é prender o Caboclo-d’Água, mas estudá-lo e soltá-lo. Um dos nossos membros, o professor aposentado da UFOP, desenvolveu um feromônio à base de sangue de bezerro, mas acabamos atraindo muitos cães. Ele já trabalha em outra versão. Em uma das tentativas, percebemos a presença de um animal, mas não tivemos sucesso, pois a maioria fugiu.”A noiva e a mãeA Noiva de Furquim também é protagonista de inúmeros relatos de aparições, todos concentrados em um mesmo trecho de estrada, no alto de Furquim. Segundo a história contada na região, na década de 1960, um ônibus que fazia a linha Belo Horizonte–Ponte Nova sofreu um acidente no local, deixando oito mortos. Entre as vítimas estaria uma noiva.Na época, conforme o relato, Mariana contava com apenas uma caminhonete, que teria sido utilizada no resgate.“Alguns pertences dos mortos desapareceram e a noiva foi enterrada sem aliança. Depois disso, ela foi vista na estrada procurando a aliança e pedindo carona. Muitos paravam, ela entrava no carro e desaparecia pouco depois. Eram tantos relatos que até uma missa para ela foi realizada pelo bispo Dom Oscar, de Mariana”, contou Leandro.Já a Mãe do Ouro, segundo as más línguas, seria uma bola de fogo brilhante que desce do céu, passa perto das pessoas e emite uma luz intensa, mas não provoca queimaduras pelo calor. Um dos casos relatados por Leandro envolve um homem que teria ficado observando a luz por muito tempo, encantado com sua aparência, até sofrer uma lesão nos olhos.O homem foi atendido no hospital da cidade, onde teria recebido um diagnóstico de lesão semelhante à provocada pela luz de solda elétrica. A irmã da vítima, no entanto, afirmava que a família vivia em um pequeno sítio na zona rural, sem acesso à energia elétrica.“Ela foi quem cuidou do irmão até a vista melhorar. Foi dado a ele um óculos escuro para usar caso visse a Mãe do Ouro de novo”, contou. A mulher é Terezinha Ramos, que posteriormente se tornou prefeita de Mariana.Batidas, cheiros e névoa repentinaApesar dos relatos que motivam as expedições, Leandro afirma que, durante as atividades, os integrantes da associação já presenciaram situações que consideram incomuns: “Sons, batidas, cheiros, névoa repentina, porém nada demais além disso, até porque todas as ações podem ter explicação, porém ainda desconhecida”, disse.Para além da possibilidade de encontrar algo misterioso, ele explica que as expedições também envolvem orientações sobre comportamento na natureza e sobrevivência na mata.Segundo Leandro, as expedições costumam ocorrer nos meses de novembro e dezembro. O curso e a próxima voagem devem acontecer nas próximas semanas, mas ainda não têm data definida. Os interessados em participar da aventura podem entrar em contato pelo telefone (31) 98844-8976 ou acompanhar as novidades pelo jornal O Espeto.













