Matheus Leitão

Perfil da Igreja Alternativa, de Piracicaba, foi desativado após vídeo sobre evangelicalismo e bolsonarismo viralizar nas redes

Matheus Leitão
25/09/2026 14:01
Meta desativa perfil de igreja após vídeo contra bolsonarismo viralizar
A Igreja Alternativa, de Piracicaba (SP), perdeu na noite de terça-feira (23) seu perfil oficial no Instagram, @igrejaalternativa. A conta tinha cerca de 2.700 seguidores. A desativação ocorreu depois que um trecho de um sermão do pastor Rodolfo Capler, publicado durante a série “O Cristão e a Política”, ganhou grande repercussão nas redes sociais.
Em aproximadamente 48 horas, o vídeo alcançou mais de 70 mil pessoas, recebeu mais de 3 mil compartilhamentos, centenas de reposts, milhares de curtidas e gerou mais de 1.000 novos seguidores para a página. O conteúdo tratava da relação de uma grande parcela das igrejas e dos pastores evangélicos brasileiros com o bolsonarismo.
A crítica de Capler, porém, não era dirigida aos eleitores de Jair Bolsonaro nem pretendia representar uma defesa da esquerda ou do presidente Lula. O ponto central da mensagem estava no risco de transformar o púlpito em palanque e a identidade política em uma espécie de extensão da identidade cristã.
Durante a pregação, Capler fez críticas contundentes a setores do evangelicalismo que, segundo ele, a partir de 2018, “se tornaram absolutamente leais a Bolsonaro”. “É uma abominação. É antievangelho. É uma afronta à mensagem pura do evangelho”, afirmou o pastor ao se referir à aliança política estabelecida por parte das igrejas e lideranças evangélicas com o ex-presidente.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles
Em outro momento da mensagem, Capler questionou a defesa da ditadura militar por parte de cristãos evangélicos. “Não dá para um cristão evangélico defender ditadura militar”, afirmou diante da plateia da Igreja Alternativa.
A série “O Cristão e a Política” foi criada justamente para discutir como o cristão pode participar da política eleitoral sem transformar a fé em instrumento de polarização. A proposta, segundo Capler, “é questionar a lógica de uma fé subordinada às disputas políticas, independentemente do espectro ideológico”.
Pouco depois da repercussão do vídeo, veio a decisão da Meta/Instagram. Segundo a igreja, a plataforma informou que a conta havia violado os Padrões da Comunidade em uma questão relacionada à “integridade da conta”. Não especificou, entretanto, qual publicação ou comportamento teria provocado a medida.
Em depoimento à coluna, Capler afirmou suspeitar que o perfil tenha sido alvo de denúncias coordenadas de grupos ligados ao bolsonarismo após a repercussão do vídeo. Até o momento, porém, não há confirmação pública da Meta de que denúncias coordenadas tenham provocado a desativação.
A igreja decidiu começar novamente. Criou uma nova conta, na madrugada desta quarta-feira (24), @igrejaalternativaoficial, e passou a pedir aos seguidores que ajudassem a reconstruir a comunidade digital. O problema é que o novo começo durou pouco.
Poucas horas depois da criação do novo perfil, a Igreja Alternativa recebeu duas novas restrições do Instagram. Segundo a igreja, as notificações apontam violações das Diretrizes da Comunidade e mencionam que “pode ser que a conta (ou atividade nela) esteja enganando outras pessoas para tirar dinheiro, propriedade ou informações pessoais delas”.
Entre as consequências, a nova conta ficou impedida de enviar links e de responder mensagens. Novamente, a igreja afirma que não recebeu uma explicação suficientemente clara sobre qual conteúdo ou comportamento específico teria provocado as restrições.
O episódio coloca uma questão que ultrapassa a própria Igreja Alternativa. Até onde vai o poder de uma plataforma privada para restringir a circulação de conteúdo político, religioso ou ideológico? E quão transparente precisa ser o processo quando uma conta é suspensa?
A Igreja Alternativa tem pouco mais de três anos de existência e realiza cultos aos domingos, às 10h, na Rua São José, 1611, no Centro de Piracicaba. Após a desativação do perfil, a igreja tenta reconstruir sua presença nas redes sociais. Para Capler, a intenção é seguir adiante. “A igreja vai continuar publicando e resistindo.” Procurada desde a manhã do dia 24, a Meta não respondeu aos questionamentos da coluna

