Andreza Matais

Lobista tratava de aval da União para empréstimo de R$ 710 milhões de prefeitura com o BB; Fazenda diz que análise foi técnica

Eduardo Militão

27/09/2026 04:08

Divulgação/18.jun.2020

Comprovantes de pagamento enviados pelo então secretário-executivo da Secretaria de Saúde da prefeitura de Goiânia, Quesede Ayres Henrique, mostram que a empresária e lobista Roberta Luchsinger recebeu pelo menos R$ 570 mil em 2024, em pagamentos feitos pouco antes e logo depois de o município receber aval do governo federal para um empréstimo de R$ 710 milhões acertado com o Banco do Brasil. O empréstimo banca obras de infraestrutura (foto). Parte dos pagamentos a Roberta foi feita pelo empresário Eduardo “DP” Barros, do escândalo do “orçamento secreto”, cuja empresa tinha contratos com a prefeitura de Goiânia e havia recebido mais de R$ 100 milhões na gestão do então prefeito Rogério Cruz (Solidariedade, ex-Republicanos). As contas para onde o dinheiro foi pararam foram indicadas por Roberta, mostram mensagens de celular obtidas pelo Metrópoles.

Os diálogos mostram que, em julho e agosto de 2024, pouco antes da concessão do aval, a lobista conversava com o então chefe da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), Rogério Ceron, hoje número 2 do Ministério Fazenda. Eles tratavam do empréstimo do BB. A lobista tentou acertar uma reunião dele com Rogério Cruz. O Tesouro é um dos órgãos responsáveis pela análise técnica. “Contatos sociais não têm qualquer relação com esse rito técnico, conduzido de forma independente pela STN e pela PGFN”, afirmou a assessoria do Ministério da Fazenda.

Nina Quintana/Metrópoles @ninaquintana

Ceron: “Contatos sociais não têm relação com rito técnico”

Em 30 de agosto de 2024, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, concedeu o aval. Roberta antecipou a publicação no Diário Oficial e cobrou mais pagamentos de Quesede, que foram feitos na sequência. A assessoria de Haddad disse ao Metrópoles que, durante sua gestão, ele “nunca teve qualquer contato com a pessoa citada [Roberta], nem tratou com ela desse ou de qualquer outro tema”.

A assessoria da Fazenda afirmou que a prefeitura de Goiânia recebeu aval para o empréstimo com base em critérios técnicos e destacou que o município porque tinha nota “A” em capacidade de pagamento. A pasta declarou que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e seu chefe de gabinete, Fábio Terra, “nunca tiveram quaisquer tratativas” com a lobista.

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“Goiânia cumpria com folga todos os limites fiscais exigidos. A dívida do município, já somada à nova operação, equivalia a 0,12 vez sua receita corrente líquida, quando o teto legal é de 1,2. O gasto anual com o pagamento da dívida ficou em 4,18% da receita, abaixo do limite de 11,5%.” – Nota do Ministério da Fazenda
A assessoria do ex-prefeito Rogério Cruz (Republicanos) disse que “não conhece nem manteve qualquer tipo de contato” com a lobista. Ele não esclareceu sobre eventual encontro com Rogério Ceron às vésperas da concessão do aval ao crédito. A reunião não consta em agendas de Ceron. “Não há registros que a reunião tenha ocorrido”, afirmou a Fazenda.
Segundo o jornal “O Popular”, em junho de 2026, a prefeitura de Goiânia havia utilizado 40% dos R$ 710 milhões do empréstimo do Banco do Brasil. Os recursos já liberados somavam R$ 375 milhões, mas R$ 287 milhões haviam sido gastos em obras de infraestrutura, saúde e educação.
O ex-secretário executivo de Saúde de Goiânia Quesede Ayres, que atuou na gestão de Rogério Cruz, não respondeu aos contatos do Metrópoles. A defesa de Roberta Luchsinger, o advogado de Eduardo “DP” Barros, a Controladoria e a Secretaria de Saúde da prefeitura de Goiânia – hoje comandada por Sandro Mabel (União) – não prestaram esclarecimentos. Eles serão publicados quando forem recebidos.
Os pagamentos de Quesede para Roberta
21.ago.2024 – R$ 186 mil – enviado pela Construservice
21.ago – R$ 214 mil – enviado pela Construservice
30.ago – R$ 50 mil – enviado pela JJ2 CI
04.set – R$ 120 mil – origem não identificada
Total = R$ 570 mil
Fonte: comprovantes bancários obtidos pelo Metrópoles
Arte Metrópoles
Quesede informa Roberta de pagamento em 4 de setembro de 2024
Tesouro exigiu complementações
A prefeitura de Goiânia pediu aval da União ao empréstimo com o BB em maio de 2024, um mês depois de Rogério Cruz sair do Republicanos e migrar para o Solidariedade. “O Tesouro exigiu quatro complementações de informação antes de concluir a análise”, informou a Fazenda à reportagem no sábado (26/9).
Mensagens de celular da lobista Roberta Luchsinger mostram que ela conversava com o então secretário do Tesouro, Rogério Ceron, desde outubro de 2023, e muitas vezes apagava as conversas. Em 4 de julho de 2024, ela diz a ele: “tenho mais uma pedido pra você tb kkkk” [sic]. Ela envia o número do processo administrativo sobre o aval ao empréstimo. Ceron responde que volta a Brasíliana semana seguinte. Em 8 de julho, Roberta cobra o aval ao empréstimo: “Recurso só pra investimento. Empréstimo que Goiânia tá precisando”. Ceron responde que sua equipe trabalha nas operações com prefeituras com prioridade para respeitarem os prazos da Justiça Eleitoral.
Arte Metrópoles
Roberta e Ceron acertam reunião com Rogério Cruz
Em 11 de julho, Roberta pergunta se Ceron pode receber Rogério Cruz, o prefeito de Goiânia. O secretário do Tesouro confirma e passa o correio eletrônico de seu gabinete. O prefeito poderia “pedir dizendo que já combinou comigo”. O parecer técnico saiu em 30 de julho. A manifestação da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, em 7 de agosto.
Em 15 de agosto, Roberta procura Ceron e diz que o caso de Goiânia está “assinado”. “Estão super felizes! Vc é o máximo”. Faltava o despacho de Haddad.
Arte Metrópoles
Roberta agradece a Ceron: “Você é o máximo”
Roberta pede dinheiro para Quesede
Em meio a essas tratativas, Roberta cobra Quesede Ayres, da secretaria de Saúde, seu contato com a prefeitura. Em 21 de agosto, ela passa a conta bancária da sua empresa, a RL Consultoria, e da agência de turismo TTW Brasil Operações Turísticas. Ela pede uma parte na empresa dela e a outra metade na agência de turismo. No mesmo dia, Roberta encaminha a Quesede uma mensagem de uma terceira pessoa pedindo para que, ao fazer o pagamento à agência de turismo, é preciso informar que foi a lobista “pois eles recebem mil pagamentos de outros passageiros’.
Arte/Metrópoles
Roberta pede que pagamentos a agência de turismo sejam identificados
Quesede paga Roberta com dinheiro da Construservice
Na sequência, Quesede encaminha a Roberta dois comprovantes de pagamento, que somam R$ 400 mil. Os pagamentos, porém, foram feitos pela empresa Construservice Empreendimentos e Construções, controlada pelo empresário Eduardo “DP” Barros Costa, denunciado pela Procuradoria Geral da República no desvio de emendas parlamentares do chamado “orçamento secreto” envolvendo o ex-ministro das Comunicações Juscelino Filho (União-MA). Àquela altura, a Construservice mantinha contratos com a prefeitura de Goiânia, de onde recebia pagamentos desde 2020. Em toda a gestão de Rogério Cruz, a empresa ganhou R$ 127 milhões dos cofres municipais, mostra o portal da Transparência. Em julho, mês anterior aos repasses, a Construservice havia recebido R$ 1,4 milhão.
Um pagamento é para a agência de turismo indicada por Roberta. O outro é para um jovem de 20 anos chamado João Mateus Teles Santana – a reportagem não conseguiu identificá-lo.
A defesa de Eduardo “DP” Barros não prestou esclarecimentos à reportagem, assim como Quesede, Cruz e a prefeitura de Goiânia.
Roberta antecipa despacho de Haddad
No dia seguinte, 22 de agosto de 2024, Roberta informa a Quesede contas bancárias de mais duas pessoas, uma delas uma servidora do Tribunal de Contasa da União (TCU), esposa do dono da casa que ela aluga em Brasília, para quem deveriam ser pagos R$ 300 mil. O outro é um rapaz para quem deveriam ser pagos mais R$ 120 mil. Ela pede “R$ 60 Cash Amanhã” em Brasília para pagar “o dono da casa”.
Arte/Metrópoles
Roberta diz para avisar a Cruz que aval de empréstimo sai segunda
Na sexta-feira 30 de agosto de 2024, Roberta diz a Quesede para avisar Rogério Cruz que o aval ao empréstimo será publicado e assinado “Pode avisar teu prefeito que segunda-feira tá resolvido. Publicado e assinado”, diz ela às 12h37. O secretário-executivo da Saúde responde com uma figurinha que diz: “Eita glória”.
Divulgação/Câmara de Goiânia
Rogério Cruz não responde sobre encontro com Ceron
“Vai ter que desenrolar”, diz lobista após despacho
De fato, naquele dia, o ministro da Fazenda autorizou o aval ao empréstimo de R$ 710 milhões. O aval foi publicado no Diário Oficial de segunda-feira 2 de setembro de 2024, como antecipou a lobista. No mesmo diálogo, Roberta pede para Quesede conversar com o prefeito “pq vc sabe vai ter q desenrolar lá” [sic]. Há uma ligação telefônica.
Na mesma sexta-feira, Quesede envia um comprovante de pagamento para a conta do Banco do Brasil da servidora do TCU e dona da casa alugada. O pagamento foi de R$ 50 mil. A empresa que fez o depósito foi a “JJ2 CI Cadastrais”. A servidora do TCU disse ao Metrópoles que o imóvel é alugado a Roberta por meio de imobiliária. Ela não revelou o valor do aluguel. Ao fazer o pagamento de R$ 50 mil referente ao aluguel da casa, Quesede disse que “agora bateu 300”, uma referência aos R$ 300 mil pedidos por Roberta em 22 de agosto.
Arte/Metrópoles
Roberta diz que prefeito tem que “desenrolar”; Quesede paga R$ 50 mil
Em 04 de setembro, Quesede sai de Goiânia e vai a Brasília. Roberta cobra dinheiro dele; depois, passa o endereço de sua casa, pede para ele vir e diz que está com “Fábio”. “Mas venha sozinho pq o Fábio não quer ninguém aqui para não dar falação”, escreveu a lobista às 15h44. Às 16h58, Quesede manda um comprovante de pagamento de R$ 120 mil. O destinatário é a conta de um homem que ela indicou em 22 de agosto. Roberta diz que tem que pagar mais R$ 50 mil numa conta do Banco do Brasil.
Mensagem indica “1M” em dinheiro vivo
Além dos R$ 570 mil em pagamentos entre 21 de agosto e 4 de setembro de 2024, as mensagens indicam que Quesede fez outros repasses a Roberta. No entanto, não é possível verificar a que se referem ou qual a proximidade temporal deles em relação a outros serviços prestados pela lobista à Prefeitura.
Alguns pagamentos foram em dinheiro vivo. Em 23 de setembro de 2024, por exemplo, ela cobra Quesede. Depois, fazem um telefonena. Na sequência, Quesede pergunta por Ulisses Viana Júnior, o motorista da lobista. Roberta então passa a conversar com Ulisses e informa que Quesede vai lhe dar dinheiro. Após a entrega, Ulisses disse a ela que Quesede lhe entregou “1M”.
Processo seguiu velocidade normal, diz Haddad
Em nota, a assessoria do ex-ministro e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, disse que o aval ao empréstimo ocorreu em velocidade normal. “O processo de autorização do empréstimo seguiu o trâmite normal, dentro do prazo de 90 dias, e atendeu a todos os requisitos técnicos exigidos. O empréstimo não envolve recursos do Tesouro Nacional.” Os recursos são do Banco do Brasil.
A assessoria da Fazenda afirmou que “a garantia da União ao empréstimo entre o município de Goiânia e o Banco do Brasil seguiu rito técnico integral, previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal e nas resoluções (…) do Senado”.
O ex-prefeito Rogério Cruz disse que terceiros podem ter usado seu nome em conversas com Roberta. “Também sustenta que, caso algum terceiro tenha usado seu nome em eventual contato com ela, ocorreu sem autorização e conhecimento”, afirmou sua assessoria à reportagem.

