Hideo Kojima revelou os detalhes do fim da parceria com a Sony para o desenvolvimento e publicação de Physint em uma nova entrevista ao site IGN. Segundo o designer, a notícia da desistência da Sony, comunicada durante uma ligação de Zoom em junho, foi um choque e fez com que ele temesse pelo fim da Kojima Productions.

Somos uma empresa independente, então não temos o respaldo financeiro de uma grande corporação. Assinamos contratos projeto a projeto; é assim que sobrevivemos como estúdio indie. Preciso encontrar um novo projeto antes que o anterior termine para nos mantermos na ativa. Esse é o nosso contexto.Pois bem, em junho, a SIE manifestou interesse em uma chamada via Zoom. Eu estava muito ocupado na época — tinha acabado de ir a Nova York para um evento da Prada e, logo em seguida, fui para Los Angeles. Mas, enfim, voltei e fizemos a tal chamada.Eles disseram que não poderiam mais financiar o desenvolvimento de Physint. Fiquei chocado e perguntei: "Como é que é?" Eu não conseguia assimilar direito o que tinham dito; estava em choque e não tinha certeza de nada.Sei que há muitas notícias na indústria de jogos sobre estúdios fechando e títulos sendo cancelados, e compreendo a situação do setor como um todo. Mas eu achava que Physint estava garantido, que o projeto estava seguro. Por isso, fiquei surpreso. Mas não foi apenas surpresa; não entendíamos o motivo. Não senti raiva nem tristeza; meu primeiro pensamento foi: "O que vou fazer com meu estúdio?" Afinal, trabalhamos com contratos por projeto. Claro que eu tinha OD, mas meu estúdio só tem dois projetos em andamento: OD e Physint. Contrato pessoal de acordo com a quantidade de projetos — e temos dois. Pensei que, se perdêssemos um contrato, talvez tivesse de dispensar toda a equipe de Physint, certo? Ou que o estúdio poderia acabar fechando por falta de fluxo de caixa.Também recorri a empréstimos bancários para financiamento. No início [quando fundamos o estúdio], eles nem nos ouviam. Depois de um tempo, quando lançamos um título, eles mudaram de postura e disseram: "Vamos emprestar dinheiro a vocês". Se descobrissem que um projeto foi interrompido ou cancelado, estaríamos em apuros. Por isso, minha mente ficou em branco quando a SIE me deu a notícia. Para ser sincero, não me lembro muito bem daquela reunião. E meus colegas provavelmente também não se lembram com clareza, então não saberia responder exatamente o que eles disseram.Nada poderia ter me preparado para a decisão deles de se afastarem do projeto. Então pensei: "O que vou fazer a partir de amanhã?" Mas, da minha parte, eu amo a Sony. E não guardo mágoas, pois sei que é um momento difícil para a indústria de jogos.Trabalho com eles há cerca de 30 anos... O Sr. Ken Kutaragi, o Sr. Hirai... eu era próximo deles. Mas a situação mudou recentemente. Percebi que essa é a realidade. É o aniversário de 10 anos do meu estúdio. O estúdio poderia acabar fechando, certo?Mas a prioridade número um é a minha equipe. Temos cerca de 200 pessoas; eu havia expandido a equipe por causa de Physint. Eles são talentosos, é claro. Alguns vieram de grandes corporações para o meu estúdio. Eu os avisei que talvez não fosse uma boa ideia... Mas, de qualquer forma, eu precisava proteger esses profissionais valiosos. Também comecei a fazer escaneamentos de atores para o projeto e a conversar com artistas sobre colaborações para Physint. Eu não podia simplesmente dizer a eles que o jogo havia sido cancelado. Não queria repetir o que aconteceu com P.T.. Claro, eu não queria que eles ficassem preocupados.Para mim, pessoalmente, é o aniversário de 10 anos do estúdio e também o meu 40º ano criando jogos; por isso, depositei tanta energia em Physint. É como o ponto alto de ambas as trajetórias. Durante a pandemia, não me senti muito bem e refleti sobre quanto tempo ainda me restava. Eu realmente queria dar tudo de mim em Physint nesta fase da minha carreira. Eu queria muito continuar com o projeto, mesmo depois daquela reunião. Fiquei pensando: "O que devo fazer?"Outra coisa importante em que pensei foi o seguinte: tornei-me independente e criei meu próprio estúdio, e muitas pessoas fizeram o mesmo. Mas ninguém alcançou um sucesso estrondoso, não importa em que parte do mundo estejam. Mas acredito que a tendência desta era deveria ser aquela em que os criadores podem realizar seus próprios projetos independentes e alcançar grande sucesso. No entanto, se a Kojima Productions entrasse em colapso, isso iria totalmente na contramão dessa tendência. Seria um retrocesso para os desenvolvedores independentes. Por isso, precisei me manter firme e dar continuidade a esse projeto. Fiquei momentaneamente sem reação, mas decidi pensar: "Certo, entendi", e me determinei a levar Physint adiante de alguma forma.Uma história real: logo após a reunião, a primeira coisa que fiz ao voltar para a minha mesa foi começar a escrever e acrescentar mais alguns detalhes ao conceito de Physint. O que acabara de acontecer era algo muito sério, um evento de grande impacto. Decidi, então, manter o assunto restrito a nós três [Hideo Kojima, Shinji Hirano e Aki Saito] por enquanto; não contamos à equipe porque precisávamos definir uma direção antes de falar com qualquer pessoa. Nos dias seguintes, cogitamos fazer parceria com empresas first-party (fabricantes de consoles), mas pensei que talvez pudéssemos mudar de rumo. Talvez pudéssemos nos associar a empresas third-party ou outros parceiros.Achei que simplesmente apresentar uma proposta de jogo e perguntar "Vocês podem financiar isto?" era uma maneira muito antiquada de fazer as coisas... Em vez disso, pensei que o caminho ideal seria dizer: "Estou criando esta nova propriedade intelectual e quero considerar tudo..."

No restante da entrevista, Kojima afirmou que o Kojima Productions não perdeu nenhum funcionário depois que parte da equipe de Physint foi transferida para OD. "Eu previ que as pessoas poderiam sair, mas ninguém saiu", disse o criador, que brincou que o time de OD poderia ter reclamado da equipe de Physint, formada por veteranos. Segundo ele, o ambiente interno é bom.

Kojima garantiu que o desenvolvimento de Physint não parou. Ele continua trabalhando no conceito, no mundo, no sistema de jogo, no roteiro e no visual, além do casting e dos scans dos atores. Também segue experimentando com novas tecnologias, como a inteligência artificial dos inimigos, e diz que precisa ajustar a história conforme os testes. Hoje, só uma equipe pequena permanece no projeto, nas partes cruciais, enquanto os demais, incluindo a animação, estão em OD. Ele avalia que o atraso foi mínimo. "Estou trabalhando nisso todos os dias", afirmou.

A engine do jogo ainda não foi definida, e Kojima não confirmou se a Decima será mantida. Ele se disse animado com o suporte tecnológico que o Xbox prometeu e lembrou de uma visita aos laboratórios da Microsoft, ainda na época de Don Mattrick. "Pensei: 'Tem tantos Doc Browns de De Volta para o Futuro aqui!'", contou.

Sobre a "visão comum" com o Xbox, que ele mencionou no X, Kojima disse que o ponto central é a ambição além dos jogos. "Eles não estão pensando apenas em financiar um jogo. Estão pensando em filmes e anime. É mais sobre a IP. Vamos criar uma nova IP", explicou. Ele comparou a estratégia à da Nintendo com Mario e Zelda, com filmes e atrações em parques, e acrescentou que "não é mais a era só dos consoles de videogame": uma IP pode virar jogo, filme, música e merchandising, e o próximo passo provavelmente será a realidade aumentada.

Kojima falou com carinho de Phil Spencer, com quem tem uma longa relação e a quem chamou de "parceiro", e disse ter ficado triste com a aposentadoria dele. Conheceu Asha Sharma em Redmond, em abril. "Ela é bem jovem, mas nos entendemos", contou, e disse ter a impressão de que ela será uma CEO promissora e de que o Xbox está passando por uma mudança de estrutura, não apenas de comando. Sobre uma eventual versão de Physint para PlayStation, ele não arriscou: "Não sei a resposta para isso, seria uma pergunta para o Xbox." Pelo que viu até agora, o Xbox quer entregar seus jogos ao maior número possível de jogadores, mas o anúncio deve vir mais tarde.

Sobre a Sony, Kojima disse continuar sem saber os motivos do cancelamento. Perguntado se a empresa explicou a decisão depois, foi direto: "Não, de forma alguma. Eles não entraram em contato comigo desde então. Mas não estou brigando com a Sony." Ele disse que não há disputa entre as partes, mas que, depois de 30 anos de parceria, gostaria de ter recebido a notícia antes. Na reunião de junho, contou, ficou em choque e fez poucas perguntas, porque só pensava no que fazer com a empresa. "Sempre fui um grande fã da Sony. Uso Walkman, todas as minhas câmeras são Sony. Não tenho nenhum ressentimento", afirmou. Questionado sobre quem na Sony comunicou o fim do financiamento e se foi Hermen Hulst, respondeu apenas: "Não posso dizer. Você teria que perguntar a eles."

Kojima também revelou como Physint nasceu. Enquanto trabalhava em Death Stranding 2 e depois da decisão sobre OD, precisava planejar o próximo projeto para manter o estúdio funcionando. Vendo os inúmeros pedidos por um novo Metal Gear, que ele não pretende fazer e que pertence à Konami, decidiu criar um novo jogo de ação e espionagem. Numa conversa com Jim Ryan, então CEO da SIE, pouco antes da aposentadoria dele, a ideia foi aprovada com um aperto de mãos. "A estrutura corporativa da SIE é diferente da época de Jim Ryan. Mas era um projeto que ambos estávamos animados para fazer. Por isso o choque foi ainda maior em junho", disse. Ele nega ter perdido a confiança no jogo em algum momento e defende que "qualquer coisa de espionagem vai ser divertida, ponto", lembrando que muita gente também estranhou Death Stranding por ser um "jogo de entrega".
Para o futuro, Kojima é enfático. "Preciso realmente terminar Physint. Estou determinado a fazer isso", declarou, dizendo ainda querer um filme live-action da franquia e encurtar o intervalo entre lançar o jogo e levar a história ao cinema. Com a mudança de parceiro, o projeto foi "reiniciado", mas ele continua pensando em expandir a IP. "Claro que provavelmente vou lançar o jogo primeiro!", brincou, acrescentando que o casting avança bem. Ele também mencionou que, se só lhe restam cerca de 10 anos de carreira, precisa priorizar o que ainda quer fazer.

