Palácio Itamaraty em Brasília

Foto: Foto:Istock

A maioria dos candidatos à Presidência falou sobre fortalecimento da soberania brasileira sem perder relações diplomáticas com outros países ao tratar de propostas voltadas à política externa. Alguns dos 13 políticos concordam em tornar o país independente economicamente, enquanto outros discordam sobre acordos com países como Estados Unidos.

- Essa reportagem faz parte da série O Brasil Que Eles Querem, que vai destrinchar os planos de governo dos candidatos à Presidência sobre Tecnologia, Educação, Economia, Saúde, Cultura, Segurança, Diversidade, Relações Internacionais, Meio Ambiente e Esporte

Há também quem inclua no plano de governo sugestões polêmicas, como a “soberania nuclear”, para proteger o território de uma possível invasão, e até selecionar influenciadores para viverem experiências anuais no Brasil para promover várias áreas, como gastronomia e cultura.

A seguir, confira o que cada candidato à Presidência está propondo com relação às relações internacionais.

Clariana Barão (DC)

Clariana Barão (DC)

Foto: Reprodução/Instagram

A candidata Clariana Barão, da Democracia Cristã (DC), quase não cita propostas de política externa. Ela propõe investimentos em portos, cabotagem e logística de transporte para escoamento de produtos, mas não apresenta isoladamente alianças diplomáticas internacionais.

Outra menção que Clariana faz é a respeito do combate ao narcotráfico e ao tráfico de armas, que estariam mais ligados às políticas de segurança pública. Ela promete transformar esse eixo em uma agenda executável, com cooperação interestadual e internacional.

O Terra entrou em contato para solicitar mais esclarecimentos, mas não teve retorno.

Edmilson Costa (PCB)

Edmilson Costa (PCB)

Foto: @edpcb via Instagram/Reprodução / Estadão

O candidato Edmilson Costa, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fala em reafirmar a soberania do povo brasileiro e cita que quer prestar “ativa solidariedade a Cuba, Palestina, Venezuela, Irã, Saara Ocidental” e outros povos que lutam contra “o imperialismo” dos Estados Unidos.

O candidato propõe que, com o peso econômico, político e diplomático do Brasil, haja a realização de parcerias comerciais estratégicas priorizando o desenvolvimento industrial e tecnológico, bem como a retenção das riquezas e lucros no Brasil, mas também a cooperação científica e tecnológica, a infraestrutura, a educação, a cultura e a comunicação.

“Queremos contribuir para que os países da América Latina e do Caribe, da África, da Ásia e do Oriente Médio construam relações cada vez mais autônomas, reduzindo sua dependência dos centros imperialistas e criando mecanismos próprios de financiamento, desenvolvimento e cooperação internacional”, afirma à reportagem.

Costa defende ainda o fortalecimento das relações diplomáticas com o Estado da Palestina; a dissolução da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), por entender que “sua expansão e atuação constituem fatores de militarização, agressividade e tensão internacional”; uma reforma na Organização das Nações Unidas (ONU); e o rompimento das relações diplomáticas com o Estado de Israel.

Escritor Augusto Cury (Avante)

Augusto Cury concorre à Presidência pelo Avante.

Foto: Reprodução/TV Globo / Estadão

Em seu plano de governo, o candidato cita querer “recuperar a credibilidade” das relações internacionais do País. Cury propõe um modelo denominado “Embaixada 4.0”, focado em metas de abertura de mercados, atração de investimentos e diplomacia voltada para acordos ambientais e climáticos na região amazônica.

Entre as propostas também está a criação do Projeto Embaixadas Empreendedoras, no qual um dos pilares é o programa ‘Influenciadores Embaixadores do Brasil’, que causou polêmica nas redes sociais. Isso porque visa selecionar influenciadores para viverem experiências anuais no País para promover várias áreas, como gastronomia, cultura, negócios e educação. Dentro da imersão, estão inclusas passagens, hospedagem e programação oficial.

Ele também promete a formação de um corpo diplomático empreendedor, com formação contínua em branding nacional, uso profissional de redes sociais e influência digital, prospecção de investimentos, turismo estratégico e economia digital.

A campanha do candidato não retornou à tentativa de contato para comentar as propostas.

Flávio Bolsonaro (PL)

Flávio Bolsonaro (PL)

Foto:

O candidato do Partido Liberal (PL) tem como meta conduzir o Itamaraty para trabalhar com base no ganho mútuo do comércio exterior, revertendo tensões diplomáticas com nações como Argentina, Estados Unidos e Israel, “sem escolher amigos por afinidade ideológica”. Flávio propõe negociar parcerias comerciais com a China, a União Europeia e os demais mercados asiáticos para reduzir vulnerabilidades em cadeias de suprimentos e tecnologia.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda diz que o passo mais “urgente” é retomar o cronograma interrompido de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que coordena políticas econômicas, sociais e estabelecer padrões globais de boas práticas. Ele também defende o fim gradual do IOF sobre o câmbio, que é a condição obrigatória nesse processo.

O candidato visa também apoiar a internacionalização das pequenas e médias empresas via BNDES e Apex-Brasil, para que o produto brasileiro chegue à outros países. A proposta ainda aborda o fortalecimento das multinacionais brasileiras, com a abertura econômica e acordos de ganhos mútuos com outras nações.

A assessoria de Flávio não disponibilizou porta-voz de campanha para comentar as propostas.

Leonardo Avalanche (PRTB)

Leonardo Avalanche é candidato pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro

Foto: Reprodução/Instragram

O candidato do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) não aborda relações internacionais de negócios ou pactos com algum país em específico, trazendo, assim como outros políticos, a soberania brasileira como uma de suas propostas de sua campanha.

Avalanche promete o fortalecimento das Forças Armadas, com aumento ‘real e substancial’ do orçamento de defesa, modernização das três Forças, ampliação da vigilância das fronteiras e da Amazônia Azul, além do desenvolvimento de tecnologia militar nacional.

Quanto ao comércio exterior, Avalanche prega uma independência estrangeira, reduzindo fornecedores de fora e exportações de matérias-primas, processando e embalando para vender à outros países. Para isso, ele propõe a industrialização do Brasil, investindo em tecnologia.

A reportagem não localizou nenhum porta-voz da campanha para conversar sobre o assunto.
Hertz Dias (PSTU)
Hertz Dias (PSTU)
Foto: Reprodução/Instagram
Hertz Dias, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) defende a ruptura com o sistema financeiro internacional e critica acordos comerciais com potências como Estados Unidos, União Europeia e China, pois segundo o candidato, essas negociações promovem a perda de capacidade produtiva na indústria nacional.
“A ruptura que propomos não é com os povos desses países, nem com as relações internacionais em si. É com a lógica de dominação que hoje subordina a economia brasileira aos interesses das grandes potências e de suas multinacionais”, afirma.
O candidato também defende que sua proposta parte da defesa da soberania nacional e dos interesses da classe trabalhadora brasileira, pois hoje, setores estratégicos da economia, como mineração, petróleo, energia, siderurgia, sistema financeiro e a cúpula do agronegócio, estão subordinados aos interesses de grandes multinacionais e grupos econômicos ligados às potências imperialistas.
Ele ainda propõe, entre outras medidas, o “monopólio estatal do comércio exterior”, a fim de recuperar a capacidade de planejar o desenvolvimento econômico e impedir grupos privados de utilizar as riquezas do Brasil exclusivamente para atender aos interesses do mercado internacional.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Foto: Foto: JOãO AURéLIO/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O plano de governo do candidato do Partido dos Trabalhadores estabelece que a política do comércio exterior continuará ‘alinhada aos objetivos das políticas industrial, tecnológica e de inovação’. Por isso, afirma que vai estimular as exportações industriais, ampliar a presença em novos mercados e concentrará em produtos com maior valor agregado.
Lula estabelece ainda uma atuação internacional independente e universalista, com prioridade para a integração sul-americana por meio do fortalecimento do Mercosul e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). O documento prevê a ampliação de parcerias com o continente africano, a consolidação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a defesa do multilateralismo em fóruns globais.
Ainda conforme o plano de governo, a proposta também defende a reforma da arquitetura financeira internacional, com a democratização do FMI, do Banco Mundial e dos mecanismos financeiros dos BRICS, entre outras medidas.
A campanha do candidato não retornou à tentativa de contato para comentar as propostas.
Renan Santos (Missão)
Renan Santos, candidato a presidente
Foto: Divulgação | Equipe Renan Santos
O candidato do Partido Missão elenca algumas vulnerabilidades da política externa como a dependência do dólar e a necessidade de soberania militar e nuclear, propondo diplomacia regional voltada à contenção do crime organizado transnacional. Suas propostas abordam também as relações com outras nações a partir de fragilidades estratégicas de defesa e segurança.
Renan propõe a celebração de acordos bilaterais com Estados Unidos e União Europeia que garantam compromissos de compra de longo prazo e transferência tecnológica em processamento de terras raras.
Neste último tópico, ele promete o estabelecimento de zonas econômicas especiais (ZEEs) dedicadas ao processamento e manufatura desses componentes, com incentivos fiscais e regulatórios que atraiam investimento direto estrangeiro qualificado. Ele também pretende parcerias com Japão, Índia, Canadá, Vietnã e Taiwan para isso.
A campanha do candidato não retornou à tentativa de contato para comentar as propostas.
Ronaldo Caiado (PSD)
Ronaldo Caiado (PSD)
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão
Ronaldo Caiado, do Partido Social Democrático (PSD), defende uma estratégia de inserção internacional que transcenda ciclos políticos, discutida com o Congresso, setor produtivo, academia e sociedade, priorizando a consolidação do acordo Mercosul-União Europeia e a expansão da presença brasileira na Ásia, África, Estados Unidos e o Oriente Médio, “sem hierarquias ou preferências determinadas por afinidades ideológicas".
O candidato estabelece que o País deve manter relações simultâneas com diferentes polos geopolíticos. Ele propõe também elevar a exportação brasileira, ocupando posições mais qualificadas dentro dessa área, com inovação e tecnologia.
Também com relação à tecnologia, ele pretende colocar a diplomacia a serviço do acesso à inteligência artificial e à computação avançada, com infraestrutura necessária e participação do desenvolvimento, governança e aplicação.
Caiado enfatiza que quer a aproximação com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), participação ativa na ONU e no BRICS, assim como do G20, buscando “influenciar decisões e contribuir para a formulação das regras internacionais”.
A campanha do candidato não retornou à tentativa de contato para comentar as propostas.
Rui Costa Pimenta (PCO)
Rui Costa Pimenta (PCO) é candidato à Presidência
Foto: WAGNER ORIGENES/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) não se aprofunda muito nas propostas de políticas externas, mas defende o fim do “imperialismo da Amazônia e da América Latina”, e que o País defenda seu território. Rui Costa também expressa apoio a movimentos e nações em conflito, citando Palestina, Cuba, Irã e Rússia.
A campanha do candidato não retornou à tentativa de contato para comentar as propostas.
Samara (UP)
Samara Martins, candidata à Presidência pelo UP
Foto: LEANDRO CHEMALLE/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
A candidatura do partido Unidade Popular (UP) critica a dependência do país em relação ao capital financeiro internacional, defendendo a total independência econômica brasileira. Ela propõe a anulação de acordos e dívidas de Estados com outros países, a proibição de remessa de qualquer recurso financeiro para o exterior sem autorização do Estado e também de atuação do capital estrangeiro dentro da economia nacional.
A campanha do candidato não retornou à tentativa de contato para comentar as propostas.
Veterinário Wilson Grassi (Democrata)
Veterinário Wilson Grassi, candidato à Presidência da República
Foto: @wwgrassi via Instagram/Reprodução / Estadão
Wilson Grassi propõe que qualquer negociação internacional --comercial, sanitária, ambiental, tecnológica, ou de defesa--, seja orientada exclusivamente pelo benefício econômico do Brasil, e não por fidelidade “a um alinhamento herdado” ou pelo desconforto de contrariar outro País.
Ele ainda defende que não será assinado acordo comercial que não abra mercado para produto brasileiro, precisa haver uma troca. À reportagem, o candidato afirmou que irá trabalhar para ter a melhor relação possível com quaisquer países, mantendo o respeito mútuo e o comércio bilateral justo.
“Também avalio que, das boas relações internacionais, podemos incentivar o fluxo de turismo, a troca de conhecimento tecnológico, científico e industrial para que todos os lados sejam beneficiados”, pondera. Ele ainda diz que se classifica como pacifista e que o Brasil deve “se abster de tomar posições por questões ideológicas e em conflitos e guerras externas que não nos dizem respeito”.
Zema (NOVO)
Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência da República
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão
Romeu Zema, candidato do Partido Novo, defende uma diplomacia orientada para a recuperação do protagonismo regional na América do Sul e a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), priorizando parcerias com o Mercosul e países da bacia do Pacífico.
Ao Terra, a campanha de Zema afirmou que a entrada do País na OCDE abriria portas para acordos comerciais, melhoraria a nota de crédito do Brasil e permitiria o acesso a fundos de investimento internacionais e a ampliação de mercados consumidores para as empresas brasileiras exportarem mais.
Além disso, o candidato promete a retirada do País do BRICS, de maneira diplomática, preservando ainda assim a relação comercial com todos os países do bloco, “sem transformar o Brasil em uma marionete de outras nações na geopolítica”.
Ele ainda propõe que se use seus recursos naturais, como petróleo, água, alimentos, minerais críticos e energia barata, para influenciar nas negociações internacionais. Em vez de depender de um ou outro parceiro comercial, o objetivo é abrir os setores para a concorrência e facilitar o desenvolvimento desses mercados no Brasil, gerando assim, poder de barganha.
