Belo Horizonte – Ryany Soares Linhares Marques, de 18 anos, moradora de São José do Goiabal, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, viveu um momento marcante nesta semana: ouviu a própria voz pela primeira vez. A jovem, diagnosticada com deficiência auditiva aos 3 anos, passou pela cirurgia de implante coclear e, cinco dias depois, na ativação do dispositivo, se emocionou ao perceber os sons de uma forma inédita.“Essa é a minha voz?”, perguntou Ryany, surpresa e com os olhos marejados, em vídeo que viralizou nas redes sociais.A reação, registrada durante a consulta de ativação, mostra o sorriso e as lágrimas de quem descobria um novo mundo sonoro após anos de limitações. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Hospital Arnaldo Gavazza (@hospitalgavazza)Da infância com aparelhos à cirurgiaSegundo Simone Coelho Lana, coordenadora do Centro Especializado em Otorrinolaringologia, responsável técnica do serviço de fonoaudiologia no Hospital Arnaldo Gavazza, Ryany é acompanhada desde os 5 anos. Inicialmente, o trabalho também envolvia o desenvolvimento da fala. Com o uso dos aparelhos auditivos e o acompanhamento regular, a paciente conseguiu desenvolver a comunicação oral.Ao longo dos anos, porém, a perda auditiva de Ryany apresentou piora progressiva. Com a redução do benefício proporcionado pelos aparelhos auditivos, a equipe passou a avaliar a indicação do implante coclear.“Ela teve uma questão da perda dela, teve uma piora progressiva, até o ponto que chegou na indicação do implante coclear”, explicou Simone.Aos 18 anos, após avaliação multidisciplinar, ela foi indicada para o implante coclear — um dispositivo eletrônico que contorna as estruturas danificadas do ouvido interno e estimula diretamente o nervo auditivo.A cirurgia foi realizada recentemente, e a ativação ocorreu apenas cinco dias depois do procedimento, prazo considerado rápido. O dispositivo utilizado é da marca MED-EL. Ryany conta que a percepção da própria voz foi uma das maiores emoções: “Minha reação foi de surpresa, emoção e muitas lágrimas”. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Metrópoles (@metropoles)Ryany foi também o primeiro caso acompanhado pelo serviço em que houve, segundo Simone, uma ativação mais precoce do implante, conforme novas normativas. A medida permitiu que a paciente tivesse contato com o estímulo do dispositivo pouco tempo após a cirurgia.“Isso diminui a ansiedade da família, você já vê um resultado. Então, foi uma alegria muito grande da família, de todo mundo se comoveu, a gente aqui também”, contou Simone.Para a profissional, a reação de Riane diante do novo estímulo também teve um significado especial para toda a equipe que a acompanha há anos. “Para ela é um mundo novo”, afirmou.Como funciona o implante coclearSegundo o otorrinolaringologista Eduardo Rossi, cooperado da Unimed-BH, o implante coclear é um aparelho eletrônico com dois dispositivos: um interno, colocado sob o músculo, e outro externo, visível. A parte externa é o processador de fala com microfone e a interna é o receptor e eletrodos inseridos na cóclea durante a cirurgia.Ele transforma o som em estímulo elétrico e, por meio de um eletrodo, envia impulsos diretamente ao nervo da audição, na cóclea.“É uma audição elétrica, não acústica. No início, a voz pode parecer robótica, como os Munchkins de *O Mágico de Oz*”, explica o médico. Com o tempo e a reabilitação, os pacientes conseguem entender a fala e até ouvir música.Segundo Rossi, há casos de músicos que perderam a audição e voltaram a exercer a profissão.Estudos médicos mostram que, em adultos e jovens pós-linguais ou com boa reabilitação prévia, a compreensão de fala costuma melhorar significativamente. Em média, a taxa de reconhecimento de palavras sobe de cerca de 8% antes do implante para mais de 50% depois, com ganhos ainda maiores em sentenças.A qualidade da audição é eletrônica — não idêntica à natural —, e o cérebro precisa de tempo para se adaptar aos novos estímulos.A cirurgia é feita sob anestesia geral, com duração média de 1,5 a 3 horas, e a recuperação costuma ser rápida. A reabilitação fonoaudiológica é essencial para os melhores resultados.Quem pode fazer a cirurgiaO procedimento é indicado para perdas auditivas profundas bilaterais — pessoas que nasceram sem escutar ou que perderam a audição nos dois ouvidos. Antes, o paciente passa por avaliação conjunta de otorrino e fonoaudiólogo para confirmar o grau da perda e a existência do nervo auditivo.Para perdas leves ou moderadas, o implante ainda não é indicado no Brasil. Nesses casos, usa-se o aparelho auditivo convencional. Em perdas profundas unilaterais, as diretrizes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) começam a considerar a possibilidade, já aplicada em estudos nos Estados Unidos.A indicação vale desde os 6 meses de idade e não tem restrição para idosos. Quem já usa aparelho convencional também pode ser candidato se a perda for profunda.Cirurgia é só o primeiro passoA reação emocionada de Ryany, segundo do Dr. Rossi, não acontece com todo mundo. “Cada caso é individual. Tem paciente que liga o aparelho pela primeira vez e ainda não consegue escutar”, destaca Rossi. A cirurgia é apenas o início. Depois do procedimento cirúrgico, é necessário acompanhamento fonoaudiológico intensivo para o cérebro aprender a interpretar os novos estímulos.“Quando aprendemos a ouvir, éramos muito novos. São capacidades que precisam ser desenvolvidas novamente”, afirma o otorrino.Cobertura e benefícios além da audiçãoApesar do custo elevado do aparelho, a cirurgia é coberta pelo SUS e pelos planos de saúde. O procedimento começou a ser mais realizado a partir da década de 1990 e ganhou força depois de 2010, mas o número de pacientes implantados ainda está muito aquém do potencial, especialmente entre adultos e idosos.No público infantil, a triagem auditiva neonatal (teste da orelhinha) facilita o encaminhamento. Já entre os mais velhos, o preconceito e a dificuldade de lidar com o envelhecimento atrapalham. Rossi ressalta que o estímulo auditivo funciona como uma “academia para o cérebro”: ativa vias cerebrais, ajuda a reduzir riscos de demência e depressão e combate o isolamento social.Ryany ainda está no começo da adaptação, com treinos e acompanhamento. Para ela, o momento de ouvir a própria voz representou a realização de um sonho construído ao longo de muitos anos — e o primeiro passo de uma nova forma de perceber o mundo. Leia também SaúdeCirurgia complexa de 24 horas separa gêmeas que nasceram unidas pela cabeça CelebridadesSimone Mendes nega cirurgia e explica mudança no nariz: veja antes e depois Vida & EstiloInfluenciadora de positividade corporal faz cirurgias e perde mais de 79 kg Minas GeraisJustiça suspende médico de BH investigado por possíveis erros em cirurgias Ainda no início da adaptaçãoRyany está no começo do processo de adaptação ao implante. Ela segue em acompanhamento e treino auditivo, mas já descreve a etapa como a realização de um sonho construído ao longo de muitos anos, com apoio constante da família e de profissionais.O caso da jovem mineira ilustra o impacto do implante coclear na vida de pessoas com surdez severa a profunda que não obtêm benefício adequado com aparelhos convencionais. A tecnologia, disponível também pelo SUS em centros especializados, continua transformando trajetórias em Minas Gerais e no Brasil.

Ryany, implante coclear
Ryany, implante coclear · Imagem: redes sociais
Implante coclear: a tecnologia que devolveu a audição a jovem mineira
Implante coclear: a tecnologia que devolveu a audição a jovem mineira · Imagem: Source: www.metropoles.com
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