Nos últimos 29 anos, uma das poucas maneiras de entrar em contato com o governo da Coreia do Norte foi por meio de um número de telefone listado no diretório de membros das Nações Unidas.Trata-se da linha telefônica da missão permanente da Coreia do Norte na ONU, sua única representação diplomática em território americano, localizada no 13º andar de um arranha-céu no centro de Manhattan (EUA).No entanto, em algum momento dos últimos três anos, uma pessoa desconhecida aparentemente invadiu a caixa postal da missão e gravou uma nova mensagem de saudação: um monólogo satírico sobre a fome em massa e o líder norte-coreano Kim Jong-un.A CNN descobriu a mensagem no fim de setembro, enquanto tentava entrar em contato com a missão. Quem liga para o número e espera pela saudação da caixa postal ouve atualmente uma voz aguda que fala imitando, de forma racista e caricata, um sotaque do leste asiático. O locutor faz piadas sobre a escassez crônica de alimentos na Coreia do Norte e convida qualquer pessoa que queira entrar em contato com Kim Jong Un a deixar uma mensagem, afirmando que, se fizer isso, talvez “alguém receba comida em breve”.Em seguida, uma voz automatizada informa ao interlocutor que a caixa postal está cheia.A Coreia do Norte, um país isolado, enfrentou no passado graves crises alimentares provocadas por má gestão econômica e agravadas por restrições oficiais ao comércio fronteiriço, além do direcionamento de recursos escassos para projetos militares, segundo especialistas.A missão norte-coreana não respondeu a um e-mail que questionava a mudança na mensagem da caixa postal.Quando um produtor da CNN foi ao escritório da missão em Nova York e bateu à porta para perguntar pessoalmente sobre o caso, um funcionário apareceu. Ele se recusou a responder às perguntas, mas demonstrou surpresa ao ouvir o produtor ligar para o número da missão e reproduzir toda a mensagem da caixa postal.“Esse não é o nosso número”, afirmou o funcionário antes de fechar a porta abruptamente.Dias depois, após o vice-ministro das Relações Exteriores da Coreia do Norte discursar na Assembleia Geral da ONU, a missão publicou o mesmo número de telefone na primeira página do pronunciamento. Até o momento da publicação da reportagem, a mensagem da caixa postal continuava inalterada.Um porta-voz da Unidade de Mídia e Ligação da ONU (MALU, na sigla em inglês) disse à CNN que aquele era o único número de telefone disponível nos registros da organização e que não havia conhecimento de qualquer mudança na mensagem de saudação da missão. O Serviço de Protocolo e Ligação da ONU, responsável pela publicação do diretório, encaminhou novamente a CNN para a MALU.Não está claro quem realizou a invasão ou a brincadeira, mas há alguns indícios públicos sobre quando e como a alteração pode ter ocorrido. David Maxwell, vice-presidente do Center for Asia Pacific Strategy, afirmou à CNN que ligou para a missão durante um protesto realizado em frente ao prédio em novembro de 2023. Segundo ele, na ocasião, a saudação da caixa postal era apenas uma gravação informando que o número não aceitava mensagens.Especialistas explicaram à CNN que é impossível descobrir quem alterou a caixa postal sem acesso aos registros privados de chamadas da missão norte-coreana, embora seja possível que um desconhecido tenha conseguido regravar a saudação sem grande dificuldade.Martin Vigo, pesquisador de cibersegurança baseado em Barcelona, disse à CNN que muitos usuários não alteram a senha padrão da caixa postal atribuída pela operadora. Em alguns casos, essa senha corresponde aos últimos quatro dígitos do número de telefone.Também é relativamente fácil adivinhar códigos de acesso por meio de serviços automatizados capazes de testar rapidamente milhares de combinações de PINs de quatro dígitos.“Por US$ 40, consigo acessar sua caixa postal sem falhar se você usar um PIN de quatro dígitos”, afirmou Vigo. “É muito barato e muito rápido.”A linha telefônica da missão já serviu como um importante canal diplomático. Como Coreia do Norte e Estados Unidos não mantêm relações formais, a missão norte-coreana junto à ONU atuou durante muito tempo como o chamado “canal de Nova York”, um dos poucos pontos de contato entre Washington e Pyongyang.Joel S. Wit, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA e autor de um livro sobre as tentativas americanas de desnuclearizar a Coreia do Norte, afirmou que a missão desempenhou papel importante nas negociações sobre o programa nuclear norte-coreano em 1994.Segundo o diretório da ONU, a missão conta com 23 diplomatas e assistentes permanentes. Wit lembra que os escritórios eram pouco mobiliados, com “a obrigatória fotografia de seus líderes” pendurada na parede. Todos os funcionários vivem nas proximidades, já que o Departamento de Estado exige que diplomatas norte-coreanos obtenham autorização antes de se deslocarem mais de 40 quilômetros para além da cidade de Nova York.“Na época de Clinton, realmente conduzíamos negociações com a missão norte-coreana”, disse Wit. “Era uma relação muito séria.”Mas os tempos mudaram. Wit observou que, com o fracasso sucessivo das tentativas de interromper o programa nuclear norte-coreano, incluindo as históricas negociações de 2019 entre Kim Jong Un e o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os dois países perderam os poucos vínculos diplomáticos que ainda mantinham.Em seu lugar, a Coreia do Norte passou a estreitar relações com países geograficamente mais próximos, especialmente a Rússia, que recebeu milhares de soldados norte-coreanos para reforçar sua frente de batalha na guerra da Ucrânia.“A Ucrânia é um exemplo claro da mudança nas relações”, afirmou Wit. “Os norte-coreanos pensam em termos geopolíticos. Não são robôs ideológicos. Sua política externa é impulsionada pela geopolítica.”“Tenho certeza de que, hoje, o canal de Nova York praticamente não funciona mais”, acrescentou. “Quem quer que tenha hackeado a caixa postal provavelmente não sabia disso, mas o episódio é uma consequência do estado atual das relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte. Hoje, essa relação tem pouca importância para os norte-coreanos.”Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp











