Um dos aspetos negativos que ficou realçado nas últimas eleições presidenciais realizadas no passado dia 19 de julho de 2026 e que de certo modo manchou a nossa democracia, foi a elevada taxa de abstenção de 58,81% que se verificou por razões que devem ser estudadas e avaliadas pelos especialistas em matéria eleitoral, para que se corrija prováveis erros, de modo a que no futuro essa situação não volte a acontecer, pelo menos com essa dimensão. Importa salientar que naquela altura não ouve nenhuma iniciativa de boicote de qualquer tipo.

Por isso é que me estranha e, sinceramente não consigo entender porque razão um destacado político da nossa praça, que já chefiou o seu Partido por muito tempo e exerceu por diversas vezes altos cargos na esfera do Estado, porque descontente com conflitos no seio do seu Partido, decidiu apelar aos seus prováveis seguidores dentro do mesmo Partido, para se absterem de participar nas próximas eleições Legislativas, Regionais e Autárquica a realizarem-se no próximo dia 27 de setembro de 2026.

É verdade que contrariamente ao que acontece em alguns Países, em São Tomé e Príncipe votar é um direito e dever cívico previsto na Constituição, mas que na prática, não há punição se o cidadão não for votar.

Na minha opinião, tal como acontece noutras circunstâncias de violação de deveres previstos na lei, o cidadão que não se desloca a Assembleia de voto para exercer esse dever/direito sem nenhuma justificação, devia ser penalizado já que ele voluntariamente não tem a consciência do seu direito. Costuma-se dizer que: ´´quem não vota, vota igual. Só que vota em branco, deixando a caneta na mão do outro´´.

Se qualquer cidadão tem o dever de saber isso, um dirigente político a esse nível que usa o apelo a abstenção como uma ferramenta de luta política, qual é a moral que terá, se um dia voltar a ser governante do Pais, para exigir deveres aos cidadãos?

Um cidadão, político ou não, tem a obrigação de saber igualmente que na política, ausência também tem consequência. Quem não escolhe, alguém escolhe por ele. Portanto, ele não terá a moral mais tarde para reclamar nada.

Por isso que o apelo a abstenção que foi feito como uma forma de protesto é uma atitude errada e reprovável porque significa entregar o Pais aos outros porque, haja o que houver, nessas eleições sairão os futuros governantes do Pais ao nível Central, Regional e Autárquicas.

Se objetivos é provocar uma derrota do seu próprio partido nas próximas eleições para criar as condições no sentido de haver eleições internas antecipadas no seio do Partido e substituir os atuais dirigentes, não é digno de um político sério e acho que não seria a melhor via porque poder-se-á criar um precedente perigoso para a estabilidade do Partido, caso esse político voltar a direção do mesmo e ter que se candidatar aos futuros pleitos eleitorais, ao nível nacional. Nunca é demais lembrar que na política não pode valer tudo.

De resto, acho que não é coreto transportar conflitos internos dos Partidos Políticos para eventos políticos ao nível nacional e institucional.

Posto isso, para além da defesa dos seus programas eleitorais e para o bem da democracia, todos os Partidos Políticos deveriam mobilizar os eleitores a participarem em massa nessas eleições e exercer o seu direito de cidadania que alguém os quer retirar.

São Tomé, 13 de setembro de 2026

Fernando Simão

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