Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final da campanha antes do primeiro turno

Foto: @Lula e @SimoneMarquette via YouTube / Estadão

A três dias do primeiro turno, a eleição presidencial chega à reta final ainda marcada por um cenário de indefinição. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) apareçam empatados no agregado das pesquisas, o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, avalia que parte significativa do eleitorado ainda pode mudar de posição.

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Em uma análise publicada nas redes sociais sobre os dez principais padrões que marcaram a eleição até aqui, Nunes afirma que “a eleição ainda não esquentou” e destaca o número de indecisos e o baixo interesse do eleitorado pela disputa, apesar de uma alta na reta final. Segundo ele, 10% dos eleitores afirmam que só decidem o voto na última semana, enquanto outros 10% tomam a decisão apenas no dia da votação.

Para o cientista político, esse quadro ajuda a explicar por que, apesar da aparente estabilidade do eleitorado mais identificado com os dois principais polos da disputa, ainda existe espaço para mudanças nos últimos dias.

“Se nem o eleitor sabe ainda em quem vai votar, o que as pesquisas revelam de forma muito acurada é que há espaço para surpresas de todo tipo”, escreve Felipe Nunes.

Economia não virou bônus eleitoral para Lula

Um dos pontos destacados por Nunes é o desempenho do governo Lula na economia e a dificuldade de transformar indicadores positivos em vantagem eleitoral. Segundo ele, o atual presidente fugiu do ciclo tradicional de governos que controlam gastos no início do mandato e ampliam despesas próximo da eleição.

Na avaliação apresentada, o 8 de janeiro interrompeu a chamada “lua de mel” presidencial logo no início do mandato e, posteriormente, a polarização política passou a funcionar como uma lente pela qual os eleitores interpretaram os acontecimentos dos quatro anos seguintes.

O resultado, segundo Nunes, é um paradoxo: Lula tenta a reeleição com o menor desemprego da série e renda em nível recorde, mas permanece empatado com o adversário. Apenas 10% dos eleitores dizem ter sentido a própria renda crescer mais do que o custo de vida. A aprovação do presidente, que havia registrado saldo positivo nos dois primeiros anos, passou a ter saldo negativo nos dois últimos.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fez anúncio de atualização monetária do Bolsa Família, no Palácio do Planalto, Brasília - DF

Foto: Ricardo Stuckert

O cientista político também aponta uma mudança na relação do eleitorado com as políticas sociais. Para ele, o antigo consenso em torno da necessidade de programas como o Bolsa Família se enfraqueceu. Enquanto parte da população mais rica passou a enxergar a redistribuição como um custo que não considera justificado, os beneficiários passaram a encarar os programas como um direito.

Por isso, segundo Nunes, o aumento do investimento social não produziu automaticamente retorno eleitoral para o governo. “O investimento social cresceu, mas o retorno eleitoral não veio junto”, afirma.

PT e PL apostaram na Presidência; outros partidos miraram o Congresso

Outro elemento da eleição é a diferença de estratégia entre PT e PL e as demais siglas. Na análise, Nunes afirma que os dois partidos apostaram na disputa presidencial como principal motor para ampliar suas bancadas na Câmara.

Os demais partidos, por outro lado, concentraram recursos nas eleições proporcionais. A estratégia passa por uma conexão entre deputados, prefeitos e eleitores: emendas parlamentares teriam fortalecido administrações municipais, criando uma rede de apoio local para a eleição deste ano.

"A lógica é a de uma conexão eleitoral perfeita. Os deputados enviaram emendas aos prefeitos, que as transformaram em melhorias locais e se reelegeram em 2024. Agora esses prefeitos são cabos eleitorais fiéis de quem os abasteceu", analisa o especialista.

A disputa pelos governos estaduais também pode interferir nesse cenário. Nunes aponta uma tendência de o eleitor tentar resolver a eleição para governador já no primeiro turno. O número médio de candidaturas caiu de 8,3 em 2022 para 7,2 em 2026, enquanto a polarização também chegou às disputas estaduais.

Segundo as pesquisas da Quaest citadas na análise, 11 Estados têm um favorito claro para vencer no primeiro turno e outros quatro apresentam disputas acirradas que também podem terminar já em 4 de outubro. Em 2022, foram 14 eleições para governador decididas no primeiro turno.
O senador Flávio Bolsonaro durante ato de campanha
Foto: Vitor Sales/Divulgação PL / Estadão
Para Nunes, isso pode ter impacto indireto na corrida presidencial porque a abstenção tende a crescer quando não há disputa para governador no segundo turno. Assim, candidatos que encerrarem a eleição estadual no primeiro turno ainda poderão atuar politicamente na reta final da corrida presidencial.
O Senado apresenta uma dinâmica diferente. A análise aponta que, em média, 80% dos eleitores ainda não sabem responder espontaneamente em quem pretendem votar para senador, enquanto 22% continuam indecisos mesmo quando os nomes são apresentados.
"A direita faz campanha contra o Supremo e a esquerda, a favor do fim da escala 6x1. Mas o voto parece mais alinhado à força do governo estadual e à preferência ideológica na eleição presidencial. O quadro está longe de definido", diz ele sobre a disputa ao Senado.
Polarização mantém Lula e Bolsonaro no centro, mas independentes podem mudar o jogo
Apesar da entrada de novos nomes na corrida presidencial, Nunes afirma que a eleição nacional continua marcada pela disputa entre Lula e Bolsonaro. A “calcificação” descrita por ele e pelo cientista político Thomas Traumann no livro Biografia do Abismo permanece.
Segundo a análise, a intenção de voto em Lula nos 26 Estados e no Distrito Federal tem forte correlação com o desempenho que ele registrou em 2022. O mesmo ocorre com Bolsonaro. Isso indica, na avaliação de Nunes, uma elevada rigidez territorial do voto.
É justamente essa estabilidade que aumenta a importância de outro grupo: os cerca de 30% de eleitores independentes. São pessoas que já votaram em Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022.
O grupo, porém, não está fechado em torno de uma candidatura. De acordo com Nunes, um terço desses eleitores atualmente não pretende votar em ninguém. Os outros dois terços estão distribuídos entre Lula, Flávio e os demais candidatos, como Cury, Caiado, Zema e Renan.
“Muitos desses eleitores gostariam de uma alternativa”, afirma o cientista político. Mas, segundo ele, parte deles pode migrar na reta final para Lula ou Flávio em um movimento de voto útil para impedir a vitória do candidato que mais rejeitam.
Esse grupo, portanto, aparece como uma das principais incógnitas para os últimos dias da campanha. Enquanto os eleitores mais identificados com os dois polos apresentam maior estabilidade, os independentes concentram uma parcela do eleitorado que ainda pode se movimentar.
Escândalos tiveram efeito passageiro e grandes cidades voltam ao centro da disputa
Outro diagnóstico apresentado por Nunes é que os principais episódios de crise que marcaram a campanha não foram suficientes, até aqui, para alterar estruturalmente a disputa.
O caso Master, o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro com o filme “Dark Horse”, e a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram ampla exposição, mas produziram efeitos considerados passageiros. Segundo Nunes, Flávio se recuperou e consolidou o eleitorado de direita, enquanto as investigações envolvendo Lulinha também não alteraram o núcleo da votação de Lula.
A explicação apresentada passa pela forma como o eleitor interpreta informações negativas sobre seu próprio campo político.
"O eleitor filtra o escândalo pela lente do seu lado, as narrativas que circulam dentro de cada bolha ganham mais força explicativa, quase como teorias da conspiração, no que a literatura chama de raciocínio motivado", analisa Nunes.
O Sudeste aparece, nesse contexto, como outro território decisivo. Nunes destaca que a disputa presidencial passa pelas grandes cidades da região. Em 2018, Bolsonaro venceu porque sua vantagem nos grandes centros do Sudeste superou a diferença que tradicionalmente favorecia o PT no Nordeste. Em 2022, porém, a margem obtida por Bolsonaro nessas cidades não foi suficiente para compensar a vantagem de Lula no Nordeste.
Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Presidência da República
Foto: Taba Benedicto/ Estadão / Estadão
A análise também chama atenção para o comportamento dos votos brancos e nulos. Entre os segundos turnos de 2018 e 2022, eles caíram de 9,6% para 4,6% do comparecimento, uma redução de 5,4 milhões de votos concentrada justamente nas cidades onde Bolsonaro mais recuou.
Ao mesmo tempo, o eleitorado cresceu cerca de 9 milhões de pessoas. Segundo Nunes, esse movimento ampliou a quantidade de votos disponíveis e Lula foi o principal beneficiário. Para 2026, a questão é se esse eleitor que tradicionalmente vota branco ou nulo voltará a escolher um candidato ou novamente optará pela anulação.
"Lula precisa repetir o desempenho de 2022 nas metrópoles do Sudeste. Flávio precisa recuperar o espaço que foi do pai em 2018. Ambos precisam conquistar esse eleitor que votou branco e nulo em 2018. O eleitor que em 2022 trocou o voto de protesto por um candidato pode voltar a anular, desfazendo um dos motores daquela vitória", aponta o cientista político.
Religião e gênero aprofundam divisão entre os candidatos
Além de renda e região, Nunes identifica dois outros fatores que passaram a separar de forma significativa os eleitores de Lula e Flávio: religião e gênero.
Na última pesquisa da Quaest mencionada na análise, Lula tinha vantagem de 9 pontos entre católicos, enquanto Flávio liderava por 30 pontos entre evangélicos. Entre as mulheres, a vantagem era de 7 pontos para Lula; entre os homens, Flávio aparecia 11 pontos à frente.
Para Nunes, a divisão religiosa observada desde 2018 deve voltar a ter peso nesta eleição e ganhou novos contornos com as discussões nas redes sociais envolvendo a padroeira do Brasil. O chamado “gap de gênero”, que também ganhou força em 2022, é apontado como importante para compreender a força e a fraqueza de Lula na disputa.
Lula ergue imagem de Nossa Senhora Aparecida em caminhada em Fortaleza (CE)
Foto: @PT-Partido dos Trabalhadores via YouTube / Estadão
Ao reunir esses fatores, o cientista político conclui que o empate nacional não significa necessariamente um eleitorado homogêneo dividido ao meio. Por baixo do resultado agregado, há diferenças regionais, ideológicas, religiosas e de gênero, além de um contingente de independentes ainda sem decisão definitiva.
Na reta final, portanto, segundo avalia, a principal incógnita não está apenas no tamanho de cada bloco já consolidado, mas em como os eleitores ainda indecisos e independentes vão se comportar. "O mapa da polarização ficou mais complexo, e o empate no agregado esconde divisões cada vez mais nítidas por baixo dele”, diz Nunes.

