A batalha sangrenta diagnosticada para acontecer no segundo turno veio antes. A eleição entrou em clima de guerra suja, na qual regras mínimas de convivência política parecem ter sido abandonadas.Até Nossa Senhora Aparecida foi arrastada para o teatro de operações. Uma fake news associou Flávio Bolsonaro a uma suposta tentativa de retirar da santa o título de padroeira do Brasil. A história se apoiava num projeto apresentado em 2007, sem qualquer participação de Flávio, rejeitado e arquivado no ano seguinte.A guerra passou a ser também santa. Flávio acusou “gente de dentro da CNBB” de ter ajudado na disseminação da notícia falsa. A entidade negou qualquer participação. Uma disputa eleitoral já radicalizada passou a explorar uma divisão entre católicos e evangélicos que não faz bem ao Brasil.A controvérsia chegou aos tribunais superiores, com decisões conflitantes de André Mendonça, no TSE, e Flávio Dino, no STF. O Judiciário foi tragado para uma disputa que já contaminava as redes sociais e as campanhas.Mas não é apenas no campo da guerra suja que as fronteiras estão desaparecendo. Há outra, essencial numa democracia: a que separa o governo do comitê eleitoral.As pesquisas explicam a pressa. Lula chega aos últimos dias da campanha diante do risco concreto de perder a eleição. A Quaest mostra empate de 42% a 42% com Flávio Bolsonaro numa simulação de segundo turno. Outros levantamentos confirmam uma disputa no fio da navalha. Foi nesse cenário que o governo pisou no acelerador.A 17 dias do primeiro turno, Lula anunciou reajuste de 15,04% no Bolsa Família. O percentual corresponde à inflação acumulada desde março de 2023. O reajuste é defensável e as famílias precisam da recomposição. Mas a inflação não surgiu em setembro de 2026. A decisão de conceder o aumento, sim.Os novos valores começam a ser pagos em outubro, entre o primeiro e um eventual segundo turno. O calendário não é um detalhe.Legalidade e oportunidade política são coisas diferentes. Uma medida pode ser legal, necessária e socialmente justa e, ao mesmo tempo, ser utilizada eleitoralmente. É o que está acontecendo.O mesmo vale para as bets. Seus efeitos sobre o endividamento e a saúde de milhões de brasileiros justificam uma ação firme do Estado. Só que o governo que agora decidiu proibi-las foi o mesmo que regulamentou o setor, autorizou os jogos on-line e passou a arrecadar bilhões de reais em impostos e outorgas.A mudança foi radical. Em 25 de setembro, Lula assinou uma medida provisória proibindo as apostas on-line. Os problemas provocados pelas bets são conhecidos há anos. A proibição apareceu quando faltavam nove dias para a eleição. Mais uma vez, o calendário fala por si.No mesmo dia veio o Desenrola 3.0. O programa permite que a União compre carteiras de dívidas inadimplidas com grandes descontos e repasse o abatimento aos devedores. A expectativa é que até R$ 150 bilhões em dívidas sejam elegíveis para o programa, que poderá beneficiar até 15 milhões de pessoas.O superendividamento é um problema real. O Desenrola pode aliviar a vida de milhões de brasileiros. Nada disso apaga o fato político: uma iniciativa de enorme apelo popular foi lançada a poucos dias da votação.A ofensiva continuou. A cinco dias do primeiro turno, o governo anunciou novas modalidades de renegociação de dívidas para MEIs, produtores rurais, empregadores, pessoas físicas e até ex-bolsistas de pesquisa. A sequência não é casual.Em poucos dias, o governo colocou sobre a mesa aumento do Bolsa Família, proibição das bets, um novo Desenrola e novas renegociações de dívidas. São medidas diferentes, dirigidas a públicos diferentes, mas têm algo em comum: oferecem benefícios materiais ou simbólicos imediatamente compreensíveis pelo eleitor. E chegam exatamente quando Lula enfrenta sua eleição mais difícil ao Palácio do Planalto.Não é preciso conhecer as conversas internas do governo para compreender o movimento político. Lula está em campanha e passou a usar a força da Presidência para recuperar terreno. Diante do risco de derrota, entrou em cena a lógica do vale tudo eleitoral.Um presidente não deixa de governar porque disputa a reeleição. Não se pode exigir que suspenda políticas públicas ou deixe de tomar decisões necessárias. O problema começa quando o calendário das políticas passa a obedecer ao calendário das urnas. É aí que governo e campanha se confundem.Lula sabe que corre o risco de perder. A reação do governo revela a dimensão dessa preocupação. A caneta presidencial tornou-se também uma arma de campanha.A batalha sangrenta não se trava apenas nas redes sociais, na exploração da religião ou na circulação de notícias falsas. Ela chegou ao próprio exercício do governo. Quando a fronteira entre governar e fazer campanha desaparece, o problema deixa de ser apenas eleitoral. Torna-se um problema para a República.Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.










